Participação de Georgea Gonçalves Saraiva no ONG Brasil - Cuidando do Cuidador
"O educador ajuda o outro a eliminar a sua dor. Eliminando e mudando a dor do outro, eu mudo e
tento transformar a minha dor. Mas preciso que alguém também enxergue a dor que é só minha"
Geórgea Gonçalves Saraiva - psicóloga do Lar Sírio
A psicóloga Georgea Gonçalves Saraiva, coordenadora do Setor de Psicologia do Lar Sírio Pró Infância
trouxe para a discussão uma nova visão
no trabalho
dos
educadores: eles também precisam ser cuidados.
Ela explicou que o Centro de Psicologia do Lar Sírio faz, não só o atendimento as crianças e
adolescentes, mas também um trabalho de orientação
e cuidado com
os educadores: "Para que haja um
atendimento ideal é preciso que o educador entenda a demanda da entidade: qual
a sua missão, seus
valores, como vai utilizá-los
e trabalhar naquele conceito", explica.
O trabalho é feito em duas frentes: uma, orientando a lidar com as crianças, adolescentes e as famílias
e outra acolhendo e atendendo
as necessidades do
educador: "Preciso olhar para o educador para
estabelecer vínculos com aquele profissional, para entender como ele pode acolher e achar o lugar do
afeto",
disse Geórgea. Para ela, este é um lugar difícil de ser atingido. "Qual é este lugar do afeto.
O afeto é o ato de afetar a vida. Se penso em afeto,
penso em
coisas boas, em grandes sentimentos,
grandes paixões, em amizade. Mas também posso pensar em afeto como algo doloroso. Quando entro
na vida de
alguém, quando percebo o outro, posso percebe-lo de uma forma positiva ou negativa e
quando o percebo estou afetando e sendo modificada
pelo bem,
ou pelo não bem", avalia a psicóloga.
A questão está em enxergar o profissional que está ali para acolher, mas sem deixar de entender
que ele é também
aquela criança, o adolescente, a mãe. "É muito difícil lidar com outro ser humano
que está sofrendo. Querendo ou não, esbarramos no nosso sofrimento.
O educador esbarra nas suas
dores, na briga com o marido, nos adolescente que o maltratam, que não fazem o que ele pede...
Seu papel fica mais difícil, porque ele educa a dor, e educar a dor de alguém é transformar. Como
posso querer que aquele indivíduo pare de xingar,
se não
consigo
entender sua dor? "O educador nãoé um ser perfeito, não sabe tudo, mas se espera que ela saiba tudo,dê conta de tudo e nunca misture
nada.
Mas quando me coloco no lugar do outro, entendo o que aquele ser sofre", afirma Geórgea.
Ela conta que ao trazer os educadores para o trabalho que estava sendo feito com as crianças e com
as famílias, eles começaram a perceber que havia
também
espaço para eles naquele trabalho. Hoje o
Centro de Psicologia do Lar funciona numa casa onde o educador sabe que pode falar sobre seus
problemas. "O que
eu tenho para oferecer: um olhar afetivo e uma escuta, o mesmo acolhimento que
tenho para a criança", explica Geórgea. É neste acolhimento
que percebemos
os problemas cotidianos
do educador, como um filho que precisa de medicação controlada, que precisa de ajuda para marcar
um psiquiatra. "Dou a escuta,
dou o olhar e o ajudo a se cuidar. Muitas vezes precisamos acompanhar
este educador, marcar um outro profissional e até levá-lo; mas muitas vezes ele precisa só falar: estou
cansado, não sei o que fazer com esta criança, ela provoca sentimentos ruins em mim, que eu não
sei lidar...", conta a psicóloga.
Ela enfatiza a importância deste cuidar: "Os sentimentos só se convertem em afeto quando
adquirem uma certa intensidade, provocando reações perceptíveis
ao indivíduo.Como eu vou educar
a dor de uma criança que está sofrendo, que chega queimada? Eu olho nos olhos da crianças e vejo dor,
mas e se ninguém olhar
para a minha dor",finaliza a psicóloga.
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